Em 2019, mergulhei no universo da produção audiovisual durante o curso Cinema e Literatura oferecido pela ONG Vida.com. A experiência culminou na realização de um curta-metragem de 15 minutos, uma adaptação da obra de Machado de Assis, “O Alienista” que batizamos de “Dossiê Bacamarte“.

Foram 6 meses de intenso trabalho em que minha mente ficava quase que 24 horas pensando em soluções para os limites que tínhamos de orçamento, locação, produção e tempo para gravar.

O que eu não esperava é que essa jornada cinematográfica me ensinaria lições valiosas, surpreendentemente aplicáveis ao dinâmico mundo do marketing.

Compartilho aqui 8 aprendizados que, acredito, todo profissional da área deveria conhecer:

1 – É PRECISO UMA PREMISSA DIFERENTE PARA FAZER ALGO DIFERENTE

Assim como no cinema, onde uma ideia original e instigante é o ponto de partida para um filme memorável, no marketing, destacar-se requer uma abordagem que fuja do lugar comum. Adaptar “O Alienista”, uma obra literária com nuances psicológicas complexas, exigiu uma visão singular para traduzir sua essência para a linguagem audiovisual.

Já houveram muitas maneiras de adaptar obras de Machado de Assis na TV e cinema, por isso, queríamos algo diferente. A solução foi dar voz a todos os personagens que conviveram com Simão Bacamarte no século XIX em um fake documentário em que o barbeiro, o boticário, o padre, a esposa e as pessoas comuns da cidade podiam dar depoimentos sobre o Alienista de Itaguaí. Não apenas levamos o livro para o filme, mas usamos as vantagens do filme para contar a história de um jeito que quebrasse o formato.

No marketing, a busca por ângulos inovadores e narrativas autênticas é crucial para capturar a atenção em um mercado saturado. Nos acostumamos a “saltar anúncio”, pular os “resultados patrocinados” do Google e ignorar todas as imagens piscantes da rede de display. Então que tal pensar numa premissa diferente de envolver seu público? Use os diversos formatos disponíveis de anúncio e interação ao seu favor, criando um conteúdo que gere valor, entretenha e distoe do que o seu público espera.

2 – EQUIPE É FUNDAMENTAL. E LIDERANÇA TAMBÉM

Dirigir um curta-metragem é um exercício de colaboração intensa. Cada membro da equipe – da direção de fotografia à sonoplastia – desempenha um papel crucial na concretização da visão do diretor. “O Alienista” só ganhou vida graças ao talento e dedicação de cada pessoa envolvida.

No entanto, cada engrenagem só funciona plenamente com uma liderança eficaz. Assim como um maestro rege uma orquestra, o diretor precisa inspirar, motivar e guiar a equipe em direção a um objetivo comum.

No marketing, o talento individual é crucial, mas é a liderança que orquestra as habilidades, alinha os objetivos e garante que a equipe trabalhe em sinergia para alcançar resultados extraordinários. Estrategistas, criativos, analistas e especialistas em diversas áreas só trabalham em sinergia e com confiança para alcançar os objetivos da campanha quando estão seguros em ambiente confiável, confortáveis para contribuir com ideias e motivados em chegar ao resultado final. E cada um desses tópicos só é alcançado com uma liderança eficaz.

3 – BRAINSTORM É ESSENCIAL PARA UM BOM ROTEIRO

A adaptação de um livro para um roteiro de curta-metragem exigiu inúmeras sessões de brainstorming. Discutir ideias, explorar diferentes interpretações e refinar a narrativa foram etapas cruciais para chegar a um resultado conciso e impactante. Uma das coisas mais gostosas eram as gargalhadas que dávamos a cada ideia que parecia absurda no começo, mas que ia se moldando até um formato que fizesse sentido para o audio-visual, para o público e para a produção.

No marketing, a geração de ideias através de brainstormings criativos é a base para campanhas eficazes. A troca de perspectivas e a liberdade para explorar conceitos são combustíveis para a originalidade de um storytelling que seja interessante para o público e comunique com eficiência a mensagem no meio que está. Por isso, nunca pare na primeira ideia e crie um ambiente, novamente, seguro e confiável para que todas as mentes pensantes possam expressar suas ideias, por mais absurdas que possam parecer.

4 – SEM PRÉ-PRODUÇÃO NÃO HÁ PRODUÇÃO

Para cada cena de “O Alienista”, dedicamos tempo considerável à pré-produção: todas elas precisaram de locações, casting, figurino, storyboard. Essa etapa meticulosa foi essencial para otimizar o tempo de filmagem e evitar imprevistos, pois tínhamos um tempo muito curto para utilizar as câmeras e gravadores da ONG.

Sem um tostão para pagar atores ou locações, fizemos amizades e encontramos sonhadores como a gente que queriam dar luz a um filme. Tivemos a ajuda da barbearia, a unidade de gestão da cultura da cidade e até de uma igreja que nos cedeu espaço para gravação!

No marketing, a pré-produção – o planejamento estratégico detalhado, a definição de personas, a escolha de canais e a criação de um cronograma – é o alicerce para uma execução bem-sucedida. Se no cinema precisamos de atores, figurino e storyboard, numa campanha precisamos conhecer as dores, desejos e comportamentos da persona.

O caos de um dia de gravação sem os atores ensaiados ou o cenário construído é o mesmo de uma campanha onde os canais não são onde seu público está e a frequência de cada veiculação não atende à necessidade de visão com o público.

5 – A DECUPAGEM É UM EXERCÍCIO INDIVIDUAL, MAS…

A decupagem, o detalhamento técnico de cada plano do filme, é um processo solitário e fundamental para o diretor. É nesse momento que a visão se traduz em instruções precisas para a equipe de filmagem.

Lembro até hoje das noites de exercícios e exercícios de imaginação sendo combiandos com a teoria: os modelos de plano e os movimentos de câmera. Todo processo de direção exige muita energia, mas aqui, também exige muita criatividade e muito repertório para pensar em tomadas diferentes e que atendem às necessidades da história e do seu público combinados com os recursos técnicos que você tem para produzi-lo.

Mas… É bem comum que na hora da gravação, dos vamos ver, mais ideias se unam a da decupagem programada e novos enquadramentos e maneiras de gravar sejam aperfeiçoados, mudados, reformulados ou criados do zero pela necessidade de adaptação.

No marketing, a decupagem dos objetivos, métricas e o detalhamento das ações a serem tomadas são tarefas que exigem foco e clareza (muita teoria) e também muita criatividade para garantir a coesão com a estratégia. Como no cinema, o Gestor de Marketing precisa de repertório e criatividade para propor ações que atendem às necessidades da estratégia, mas que também faça sentido para o público-alvo, conhecendo bem a equipe que tem para usar o melhor que eles conseguem produzir.

A vantagem, nesse caso, para o marketing é o brainstorm. Não que no cinema não há brainstorm, mas enquanto a decupagem de tomadas do diretor de um filme precisa ser individual para garantir a “arte” da coisa, o gestor de marketing compartilha sua decupagem estratégica para, em grupo pensar numa solução estratégica que não precisa, necessariamente, da assinatura artística de um gestor, o que importa é o resultado.

Sem contar que a adaptabilidade da hora do “vamos ver” no cinema, precisa ser uma constante no marketing: nem tudo vai estar previsto na hora da concepção, ainda mais num universo onde seus atores não seguem o seu roteiro. Mas vocês verão esses pontos melhor nos próximos tópicos!

6 – É PRECISO OUVIR O ATOR

Durante as filmagens, percebi a importância de ouvir as interpretações e sugestões dos atores. Eles trazem suas próprias vivências e entendimentos dos personagens, enriquecendo a narrativa de maneiras inesperadas.

No marketing, a escuta ativa do público-alvo, o feedback dos clientes e a compreensão de suas necessidades e desejos são essenciais para criar campanhas relevantes e construir relacionamentos duradouros.

Se no cinema os atores são contratados, no marketing o “história” de sucesso que você quer vender depende de atores da vida real que vão, genuinamente, se apaixonar pelo produto, consumi-lo e recomendá-lo.

7 – O DIRETOR É QUEM DÁ A PALAVRA FINAL

Em meio às diversas opiniões e sugestões no set de filmagem, a decisão final sobre a direção a seguir cabe ao diretor. É ele quem precisa manter a visão unificada e garantir que o filme siga a narrativa desejada.  Lembra do que eu disse da “assinatura” do diretor?

No marketing, o líder da equipe precisa ter a capacidade de tomar decisões assertivas, mesmo diante de diferentes perspectivas, para garantir que a estratégia seja implementada de forma coesa e eficaz. Mas o “dono” da estratégia é o Gestor.

Do mesmo jeito que não adianta o diretor de cinema culpar o diretor de arte pelos problemas em um filme que não ficou “claro” para o seu público, não adianta o gestor de marketing empurrar para o copywriter, o designer ou gestor de tráfego a “culpa” pelo fracasso de sua campanha, visto que ele precisa ter um olhar 360º sobre tudo o que envolve cada ponto de contato com o público.

8 – GRAVE, REGRAVE E GRAVE NOVAMENTE

A perfeição é uma busca constante no cinema. Muitas vezes, uma cena precisa ser repetida inúmeras vezes até atingir o resultado desejado. Já viu aquelas piadas em programas de humor com a claquete escrita “Cena 23 – Tomada 283 – Ação”? Sim, isso pode acontecer! Ainda mais em uma cena curta!

No marketing, a mentalidade de testar, medir e otimizar continuamente as campanhas é fundamental no Growth Marketing. A análise de dados e a disposição para ajustar a rota são cruciais para alcançar os melhores resultados em cada teste. Por isso a importância de fazer testes curtos e rápidos para entender o que funciona e, aí sim, escalar ela para obter grandes resultados.

EXTRA (POR QUE EU AMO CENAS PÓS-CRÉDITOS)

É necessário avaliar os aprendizados: Após a finalização e exibição de “Dossiê Bacamarte”, a reflexão sobre o processo e os aprendizados foi tão valiosa quanto a própria produção. Identificar os pontos fortes, os desafios e as lições aprendidas permitiu um crescimento pessoal e profissional significativo. No marketing, a avaliação pós-campanha, a análise de resultados e a identificação de oportunidades de melhoria são etapas essenciais para o aprendizado contínuo e o aprimoramento das futuras estratégias.


A experiência de dirigir um filme inspirado em “O Alienista” de Machado de Assis em 2019 foi muito mais do que uma atividade acadêmica. Foi um mergulho em um processo criativo complexo que me proporcionou insights valiosos sobre liderança, colaboração, planejamento e a busca pela excelência.

Essas lições, aparentemente distantes do universo do marketing, revelaram-se ferramentas poderosas para navegar com mais eficácia e criatividade no desafiador cenário da comunicação e dos negócios.

Agora, convido você a assistir o Dossiê Bacamarte. O formato é um docu-drama (que nos rendeu até prêmio, uhull!) que combina Humor Satírico, Drama Simulado e Jornalismo Fictício.

Bom filme!

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